Por: Carlos Cereijo / Fotos: João Mantovani

O caminho trilhado por este kit de Porsche 356 e seu dono, o empresário Acácio Braz, é digno de um livro. A trama tem final feliz, mas conta também com passagens de ação, suspense, drama e até comédia. Uma das partes cômicas foi justamente quando Acácio decidiu que iria montar um kit de Porsche. “Eu tinha uma réplica de Shelby Cobra com motor V8 302 que dava dor de cabeça para acertar. Mudei para o 356 pensando que ia ser mais fácil e barato com o motor a VW ar”, lembra, aos risos. “Para montar o 1.7 do jeito que eu queria, demorou seis meses. Depois foram mais seis meses para acertar a injeção programável”.

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Esse tempo todo não foi preguiça, muito pelo contrário. O responsável pelo motor, Celso “Magrão” Cordeiro, da Rod Action, de Curitiba, pesou e igualou os quatro kits de pistão e biela. “Eu chegava na oficina e lá estava o Magrão pesando e fazendo retífica para tudo ficar igual”, lembra Acácio. Com o motor montado, o preparador não queria remendos no chicote da injeção. Comprou cabos nas cores correspondentes para deixar tudo do jeito dele. Depois, foram horas com o 356 amarrado no dinamômetro até calibrar a InjePro.

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O motor usa gasolina, com duplo corpo de borboleta e kit de SP2. O escape é Empi, mas a ponteira de inox é feita sob encomenda. O 356 roda acertadinho em todas as rotações. O conversível, que gera 96,2 cv, têm fôlego em todas as quatro marchas do câmbio manual. Também não tem drama na hora de ligar o carro de manhã. É bater na chave e aproveitar.

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Aí entra a ação no roteiro dessa história. Acácio curte acelerar o Porsche e leva as filhas, uma de 9 e a outra de 17 anos, para aproveitar o vento no rosto. O apelido carinhoso que as meninas dão ao carro é “Laranja”. Isso se deve à maneira que o esportivo foi montado no começo, com carroceria no estilo restomod alaranjada. “Decidi refazer toda a carroceria fiel aos 356 fabricados entre 1957 e 59. Tirei a pintura laranja e colocamos o vermelho Turkish Red, original dos Porsche feitos naquela época”, conta Acácio.

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O trampo filé de deixar toda a fibra de vidro perfeita foi feito pela OMZ, de Curitiba. Observe os reflexos da paisagem no corpo do 356. Viu alguma ondulação? Nada.
Para completar o visual, Acácio foi buscando os apliques da carroceria, faróis e lanternas nos Estados Unidos. “A cada edição do SEMA eu voltava com peças encomendadas na Sierra Madre [loja especializada em peças para restaurar Porsche] da Califórnia”, lembra. Outros itens foram garimpados pelo dono aqui.

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O volante é Shutt, os instrumentos VDO e os bancos são AMB. Por sinal, a filha mais nova de Acácio reclamou da antiga versão do banco, toda em courvin. O material ficava quente ao sol e machucava. Acácio pediu à AMB para personalizar os bancos com tecido com costuras especiais de época. O pessoal da fábrica atendeu rapidinho ao pedido dele, afinal, Acácio é proprietário da AMB.

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Outro capítulo engraçado é o das rodas. O empresário fazia questão de redondas de 15” que a Mangels fabricava na década de 1980. Vasculhando anúncios na internet, Acácio achou uma roda, depois outra. Conclusão: cada roda veio de um lugar e foram todas reformadas para o 356. Como dá para ver, o offset é diferente na traseira e dianteira. “Depois fui pesquisar e vi que, por coincidência, era assim também que a Porsche montava nos carros originais”, explica.

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Da AMB também é a suspensão dianteira duplo A. Já a traseira foi a parte dramática do enredo. O primeiro preparador usou uma configuração independente, o que deixou o motor alto e forçava a quebra da homocinética. “Voltei ao meu plano original de usar a parte traseira da Variant 2, com braço arrastado. Ficou certo e fiel ao que era feito nos anos 1950”, diz.

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Unir o chassi tubular com a carroceria foi o momento de suspense. Acácio fez o serviço por conta própria e usou um método parecido ao da Lotus, onde os painéis de fibra de vidro vão colados no chassi e não aparafusados.

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“Fiquei durante todo o feriado do Carnaval subindo e descendo a carroceria até achar todos os pontos perfeitos”, recorda. Para completar a meticulosidade de Acácio, há reforços metálicos por dentro da fibra para ancorar as partes móveis do 356, como portas e fechaduras. Ainda há barras nas portas, abaixo do painel e subindo pela traseira para aumentar a rigidez torcional do carro.

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Acácio sempre foi fã de Porsche e percebe uma relação diferente das pessoas na rua. “Quando saio com o 356 as pessoas sorriem, tiram fotos, querem perguntar sobre o carro. Com o Cobra não era assim, as pessoas não olhavam com tanta simpatia”. Após oito anos montando o conversível, o empresário ainda quer melhorar as pedaleiras e colocar cabos Aeroquip nos freios para aumentar o desempenho das frenagens. Portanto, Acácio e o Porsche 356 ainda vão trilhar muitas histórias juntos.

Ficha Técnica

Motor > 4 cilindros boxer, 1.7
Alimentação > injeção, gasolina
Potência > 96,2 cv
Torque > 20,5 kgfm
Transmissão > Manual, quatro marchas, tração traseira
Freios > Discos
Pneus > 195/60
Rodas > Aro 15”
Upgrade > motor, suspensão, escapamento, freios, estrutura
Empresas > OMZ, Rod Action, AMB