Alemanha, pista de Hockenhein. Palco da Fórmula 1 e muitas das principais categorias do automobilismo mundial. Estou ao volante de um Jeep Renegade, no primeiro lugar do grid. Na Pole Position. A pista está vazia para a FULLPOWER e pro Jeep. Luz verde e acelero tudo. Mas não saio do lugar: apenas o Renegade está se mexendo e vejo tudo isso em uma tela de 230 graus que por pouco não dá a volta no veículo todo. O ronco do 1.8 16V Flex do Renegade está lá, giro subindo, mas é apenas o áudio das caixas de som. O mundo é virtual e na vida real minha localização é a Universidade PUC Minas, em Belo Horizonte (MG). Por alguns minutos sou o piloto do simulador de R$ 18 milhões de Reais, fruto de um desenvolvimento do Grupo FCA em parceria com a própria instituição de ensino e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Existem apenas oito simuladores como este no mundo e estamos amarrados no único da América Latina.Você leu direito: a parada tem investimento de R$ 18 Milhões e está em desenvolvimento há anos. Segundo um dos engenheiros responsáveis, essas máquinas estão sendo estudadas e desenvolvidas há cerca de três décadas e não dá para simplesmente falar que em três anos nasceu esse equipamento com nove braços articulados, centenas de sensores, computadores, compressores e outros recursos para manter tudo pressurizado e em funcionamento.

Enquanto estou ao volante, rasgando a reta de Hockenhein, pelo menos cinco engenheiros observam o que estou fazendo, para onde estou olhado e com o que posso me distrair: multimídia, navegação, espelhos e sabem até se estou cansado enquanto subo em uma das zebras. Coisa de louco! Se eles quiserem me sacanear, podem baixar a calibragem de um dos pneus, apertar o botão do Enter em um dos diversos computadores da sala gelada pelo ar-condicionado e me fazer rodar sem eu entender o motivo. Mas quem pilota de verdade um simulador desses, percebe na hora que o comportamento do veículo mudou e não perde o controle. É inacreditável.Simuladores como este são encontrados na fábrica da Ferrari, McLaren, Porsche. Se os engenheiros quiserem simular a diferença de um sistema de suspensão com eixo de torção na traseira com um multi-link, basta uma programação e experimentar. Quer aumentar o número de lombadas de um trecho urbano e conhecer as limitações dinâmicas? É fácil criar esses “dejetos rodoviários” no Sim Center. Pistas que existem no mundo todo (e as que não existem também), assim como veículos com comportamentos variados são criados conforme o desejo da engenharia. Quer mudar a curva de torque de um motor? Seja feita sua vontade. Quer mais potência? É pra já! Claro que tudo pensado com os diversos departamentos de um fabricante de automóveis: financeiro, engenharia, design… O simulador permite que se viaje o quanto quiser, sem a necessidade de criar uma peça física sequer.

Economia com investimento

Horas de simulador adiantam o expediente e evitam investimentos pesados em componentes que não servirão para nada ou serão pouco eficientes. E como ele está instalado em um ambiente neutro, em parceria com a universidade, equipes de competição que quiserem experimentar novos acertos poderão alugar e usar. Até mesmo as outras áreas da FCA pelo mundo, se quiserem, poderão avaliar e estudar melhorias em uma picape Dodge Ram por exemplo, mandando alguns dados para os controladores e programadores do simulador. E terão de mandar uma cabine de verdade também, pois cada veículo experimentado tem de ser “na real”. Se nós avaliamos a tecnologia com o monobloco do Renegade, há também a hora que a carroceria quatro portas do Fiat Argo está montada à estrutura ou um Uno, por exemplo.E enquanto o simulador fica em atividade, técnicos estão estudando amortecedores e outros componentes em outras salas que funcionam como laboratórios, trocando peças físicas que o simulador aponta o comportamento. Na nossa visita, por exemplo, pudemos ver mudanças nas válvulas dos amortecedores para que esses componentes respondessem melhor às solicitações dos pilotos no mundo virtual. Não só o feeling do piloto ao volante, mas também os gráficos apontados a cada volta em um circuito ou trecho urbano apontarão o que e como deve-se mudar em um equipamento ou conjunto de peças que estarão no carro.Sabe o Hugo?

A sensação de dirigir sem sair do lugar é estranha. As reações tentam se aproximar do que seria a realidade. Dá para sentir o pneu rodando, sentir a dianteira escapando, mas na hora de frear a carroceria mergulha demais em relação à tela e a sensação é de uma freada bem mais forte do que seria na vida real. Ao acelerar, a frente levanta bastante também, mais até do que seria uma arrancada no semáforo.

Antes de sentar e ser amarrado no banco do Renegade, respondi a um questionário para saber se ficava tonto fácil (eu já nasci tonto), se os enjôos eram comuns e se havia chance de passar mal. Fui entender as perguntas depois de rodar alguns metros. Realmente a sensação é diferente, mas é divertido e depois de cinco minutos dá vontade de passar dias sem comer ou dormir, apenas pedindo por mais potência, torque, menos rolling de carroceria e mais freio. Ainda mais em pista de corrida.

Me atrapalhei bem com as trocas de marchas e com o próprio traçado do circuito, afinal não sou do clube dos video-gameiros e não curto tanto simulador (depois desta experiência deu vontade de tentar alguns jogos). Um diferença em relação à vida real é que a carroceria não vibra nada e conforme a rotação do motor sobe, percebe-se um ambiente bem neutro e apesar de chegar ao limite de giro por algumas vezes, parecia que ainda não estava na hora da troca de marcha. Para quem olhava de fora, a sensação era de eu estar em um VTEC girando 9.000 rpm sendo que o powertrain do “meu Renegade” do SIMCenter era um 1.8 com câmbio automático de seis marchas. Ou seja, trocas na hora errada, reduções de marchas totalmente equívocadas e um show de braçadas para quem assistia ao mané aqui.

Mas para quê tudo isso? Todo esse investimento?

“O SIMCenter é uma colaboração entre BNDES, da FCA e da PUC Minas. São o governo, a empresa e a universidade juntos, trabalhando para geração de conhecimento e inovação para o país e para o mundo”, completa o professor Sérgio de Morais Hanriot, pró-reitor de Pesquisa e de Pós-Graduação da PUC Minas. Alunos poderão usar e aprender com ele, assim como os engenheiros poderão desenvolver os carros lá. Já para os executivos, engenheiros, projetistas e pilotos do Grupo FCA, o SIM Center vai acelerar o processo de desenvolvimento de todos os veículos do grupo, ajudará muito com o INOVAR-Auto. “Com telemetria que aponta velocidade, aceleração, ângulo do volante, marcha, torque e potência, além das reações do motorista, analisamos completamente o automóvel e o ecossistema onde ele está”, diz o diretor-adjunto de Engenharia Chassis da FCA, Leandro Quadros. “Com esse equipamento, não precisamos esperar a construção de um protótipo e ainda simulamos situações de distração do motorista, cansaço, efeitos de medicamentos, além de sinalizações e traçados de rodovias que ainda não foram construídas. Tudo isso em ambiente controlado e seguro, que podem até mesmo auxiliar na elaboração das legislações de trânsito”, comenta Toshizaemom Noce, supervisor de Inovação da FCA.