Quando entrou em um navio com destino ao Brasil, este Chevrolet Suburban 1948 já havia sofrido de tudo carregando pessoas (leva sete adultos enormes ou incontáveis crianças) e o que pudesse encher sala, cozinha e garagem de um cidadão norte-americano. Tempos depois, já em terras tupiniquins, foi maltratada em Belo Horizonte por anos e anos, carregando mais carga e um bando de gente. E foi assim que o primeiro SUV da história enfrentou mais de 60 anos de vida até parar, merecidamente, em um verdadeiro centro de saúde automotivo em Salto, SP. Responsável pela customização de diversos antigos, Alexandre Benevides, da HCB, recebeu a aposentada perua e prometeu: “Seus dias de sofrimento acabaram”. Iniciou-se, então, a reforma e customização de um modelo totalmente exclusivo. E o melhor: sem nenhuma preocupação com tempo ou dinheiro. A única exigência do proprietário, que prefere o anonimato, era ter seu sonho realizado. A Suburban apareceu, recentemente, no Programa garagem Hot Rod, do Discovery Channel.

sub3 tireshop

Serra, aço, solda, lixa, lixa, lixa e mais lixa

Interna e externamente, a ferrugem havia tomado conta de toda a lataria da Suburban. Para Alexandre e sua equipe, apenas um detalhe se comparado à complexidade do projeto, todo feito em chapas de aço dentro da empresa. “Quem vê o carro pronto não percebe logo de cara onde estão as modificações. Essa é a grande sacada na hora de customizar”, explica. Na HCB, cada profissional é responsável por determinado setor. Walter Francisco foi quem tomou conta da funilaria, desde o início até entregar o carro para a preparação e pintura. No pacote de “mudanças-radicais-difíceis-de-serem-encontradas”, o capô perdeu 7,5 centímetros de altura e o teto, refeito com a inserção de uma chapa emprestada da Caravan 76, ficou duas polegadas mais baixo.

Achou moleza? Que tal recortar a lateral do carro e instalar mais duas portas (suicidas) para dar charme ao hot? Uma modificação desse porte, segundo Walter, gera torções estruturais extremas (e ruídos de todos os timbres e tons). Por isso, foi necessário “amarrar” todo o chassi, da parede corta-fogo, até a tampa traseira, também totalmente reformulada, com abertura da única peça para cima.

Se você tem algum conhecimento de pintura automotiva, pode imaginar o trabalho de preparar uma van arredondada deste porte. Nem sabe por onde começar? Mais ou menos assim: foram gastas pelo menos 16 semanas para deixar tudo lisinho para a pintura, em um trabalho de segunda a sábado, das 9h as 18h. Reinaldo Rosolen, o cabeça da pintura da empresa, lixou tanto, tanto, mas tanto as peças de lata separadas e depois montadas no carro, que suas impressões digitais gastaram e desapareceram. O sofrimento dele só acabou depois de pintar, envernizar (tudo com produtos PPG) e polir a Road Dog Xuxete, nome que homenageia à cadela do proprietário.

Depois de zerar o corpinho, era hora de se concentrar no interior, cheio de modernidade disfarçada para não tirar a nostalgia da Chevrolet. Os bancos dianteiros, por exemplo, vieram de um Citroën Picasso, instalados sem encosto pela Bravo, de Indaiatuba, responsável pela tapeçaria. Na traseira, que ganhou banco de VW Cross Fox e vidros elétricos, tem até sistema de ar-condicionado dual-zone, que gela para valer toda a cabine, refeita com lateral de portas, carpete, teto… Tudo com aspecto “0 km”. Feitos à partir de blocos de alumínio, o volante modelo Outlaw e as pedaleiras são da Billet Specialties. Já o painel, onde um DVD-player Double Din foi instalado, também parte de um bloco de alumínio maciço, porém, desenhado e recortado em máquina CNC, aqui no Brasil.

Potência conservadora

Desde o início do projeto, a ideia era construir um carro forte, porém, não voltado para performance esportiva. Por isso, Alexandre optou por uma motorização confiável para substituir o seis cilindros original. Em um cofre totalmente refeito, que esconde toda a fiação elétrica e garante acabamento digno de SEMA Show, o customizador instalou um V8 350 zerado, de aproximadamente 300 cavalos, e um câmbio automático TH 350, de três marchas. Completa a transmissão um diferencial Dana 44 de relação 3.54:1, bem longo. Benevides não se animou na hora de modernizar a alimentação, que também remete ao passado: um quadrijet Holley de 450 cfm. “Nessa configuração dá para curtir muito, com ótimas velocidades de cruzeiro”, explica.

A instalação do atual propulsor, inclusive, participa de outra modernização importante. Seus coxins são apoiados no novo quadro de suspensão dianteira, instalados na posição mais baixa e perto da parede de fogo possível. “Desta maneira, baixamos o centro de gravidade e o resultado é uma bela melhora na dirigibilidade”, explica Alexandre. Também importado, o sistema da suspensão a ar Air Ride, da Ride Tech, é especialmente desenvolvido para a Suburban e aposenta os feixes de mola originais. Na dianteira, são duas bandejas de cada lado e sistema independente. Na traseira, trata-se de um four-link triangular. Para controlar a altura da carroceria, basta selecionar a opção desejada pré-estabelecida por computador. “Estacionamos a Suburban em um piso zero (totalmente plano) e definimos três alturas. Agora, basta selecionar a desejada eletronicamente e rodar sem problemas”, diz.

Na altura mínima, a carroceria quase esconde um pedaço das rodas Magnum, da Billet Specialties, feitas sob encomenda para o projeto da HCB. Também importadas, já chegaram ao Brasil com off-set perfeito para o carro e nas medidas 18” x 8” para a dianteira e 20” x 10” na traseira, calçadas com pneus Pirelli P-Zero. No cotidiano, Alexandre aconselha selecionar a altura intermediária, que garante um belo visual e todas as características de conforto e segurança oferecidas pelo sistema de última geração. Para segurar este grande SUV, o sistema de freio completo é da Willwood, desde os reservatórios e servo freio, aos quatro discos de 12 polegadas com pinças de quatro pistões.

Road na pista

Na estrada, em uma bela tarde, a sensação de viajar com a Road Dog é única, por vários motivos. O espaço, as cores, o rolar suave da carroceria… Tudo está no lugar, em sintonia. Se dá vontade de acelerar, pode abrir os vidros e liberar o ronco de escape (com sistema cut-out), da Nova Racing, de Campinas. Quer curtir a qualidade do sistema multimídia? É só fechar a válvula, subir os vidros, ligar o ar e relaxar nos bancos confortáveis.

Segundo Benevides, os anos de trabalho e o investimento do proprietário de mais de R$ 400 mil tornaram-se uma peça sem valor estimado. “O dono de um carro como este já tem casa própria, apartamento na praia, carro esportivo… Por isso, é um prazer ter a responsabilidade de realizar a vontade deles”, comemora o customizador deste verdadeiro sonho sobre rodas.

Ficha técnica

Oito cilindros em V, 5.7, 16V

Carburador, gasolina

300 cv (estimados)

40 kgfm (estimados)

Automática, 3 marchas, tração traseira

Discos ventilados

Dianteira: 285/40 / Traseira: 295/40

Dianteira: aro 18” / Traseira: aro 20”

Texto e fotos João Mantovani